Desintoxicação

Curando-se da Síndrome do Trauma Religioso

Curando-se da Síndrome do Trauma Religioso

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O conteúdo é tóxico.

Ninguém é imune, é lógico.

Programado apenas pra aceitar,

direcionado pra não questionar.

Vá em busca, pra encontrar seu lugar.

Não seja só uma peça pra engrenagem rodar.

Não é a verdade, mano. O que eles querem

é tentar impedir que os fatos se revelem,

que as mentes se rebelem,

que você possa ir além,

pra buscar algo que te faça bem.

— Mussoumano

(Em Tóxico)

Qual a probabilidade de uma pessoa que nunca tenha seguido religião alguma crer em seres e lugares invisíveis? Pois é. A maior prova de que religião é lavagem cerebral é ela fazer você acreditar em coisas que não existem.

Embora tenham uma base comum, obviamente as religiões não são iguais. Umas são piores que outras. Em se tratando do Cristianismo, quanto mais biblicista uma denominação, mais profunda a lavagem cerebral e, consequentemente, mais penosa a desprogramação, que pode levar mais tempo se a pessoa foi, como se diz, criada na igreja.

Quem nunca foi membro de igreja, ou duma saiu com facilidade, não consegue imaginar que o Cristianismo possa causar traumas psicológicos. Mesmo nela não (mais) acreditando, vê a religião de Jesus como inofensiva. Isso se deve ao fato de o Cristianismo ser antigo. Foi trazido ao Brasil há 500 anos pelos portugueses, que já o praticavam há séculos. Por conseguinte, está enraizado na cultura brasileira. A ele acostumada, a maioria das pessoas pensa apenas em suas doutrinas bonitinhas, como perdão e caridade. A verdade é que o Novo Testamento ensina também coisas com o potencial de gerar transtornos emocionais e que podem continuar a assombrar pessoas que já saíram da igreja. Por exemplo:

Há algum tempo, você se deu conta de que a Bíblia contém absurdos. Isso gera conflito interno: você foi induzido a considerar o Cristianismo bom, mas, agora, percebe que o livro em que ele está fundamentado ensina também maldades. Por algum motivo, a lavagem cerebral religiosa não está mais conseguindo forçar você a justificar as doutrinas perversas da Palavra de Deus. Além disso, você nota que entre muito do que a Bíblia diz e a realidade há uma enorme discrepância.

Você quer se libertar dessa prisão ideológica, mas esse é um daqueles casos em que falar é fácil, fazer é que é difícil. Afinal, a lavagem cerebral religiosa passou, quem sabe, décadas ameaçando você de tortura num lago de fogo e enxofre por duvidar. Em você, ela inculcou que hesitar é mau e culpa sua: você está sendo fraco e dando ouvidos ao inimigo. Ademais, muito provavelmente toda a sua família e todos os seus amigos são evangélicos. Talvez você até trabalhe para um membro da igreja. Por isso, você se sente só, tem receio e não sabe como proceder.

Tenho certeza de que estas reflexões o ajudarão:

Conscientize-se de que o medo que você talvez ainda tenha de definitivamente romper com a religião foi embutido em você por ela mesma. Não é preciso ser um gênio para perceber que a ameaça de castigo infernal é uma arma para impedir você de fugir da prisão religiosa. É Deus apontando um revólver para sua cabeça e dizendo: “Acredite em mim, obedeça-me, ame-me e adore-me, senão…”. Ora, qualquer sistema de ideias que coaja você a aceitar e o intimide a não questionar é perverso e merece ser jogado no lixo.

Seja honesto consigo mesmo. A religião não está mais fazendo sentido para você. Então, pare de forçá-la a fazer sentido. Exatamente como num relacionamento abusivo, a religião põe a culpa em você e o manda se esforçar mais. Caia na real. Você já percebeu que religião é um universo paralelo. Pare, portanto, de tentar viver no universo paralelo da religião. Se, por receio de magoá-los ou embravecê-los, você está mantendo as aparências, fazendo de conta que ainda crê, um dia você terá de dizer a verdade a seus familiares e amigos. Não é fácil, mas é necessário para ter integridade pessoal e saúde mental. Não poupe as pessoas de terem sentimentos negativos para com sua perda de fé. Você não está cometendo maldade alguma. Seus relacionamentos passarão por alguns desafiadores ajustes, mas valerá a pena. Se você é adolescente e seus pais o ameaçam de castigo físico, denuncie-os. Ninguém tem o direito de obrigar você a ir à igreja.

Acalme-se. Acalmando-se, você retomará o controle de sua mente. A religião passou anos intoxicando você. Então, dela se desintoxicar leva tempo. Você terá de lidar com diversas emoções e sentimentos, como ansiedade, raiva e solidão. Contudo, aos poucos você reconquistará a confiança em sua habilidade para pensar por si mesmo, expressar seus próprios pontos de vista e tomar decisões. Por fim, suas feridas sararão. Você se sentirá mais forte e capaz de se amar e cuidar de si mesmo. Apesar de talvez se sentir só, você não o está. Muita gente já passou pelo que você está passando. Leia histórias de desconversão. Se é difícil deixar o Cristianismo, pense em quão mais difícil é deixar o Islamismo. Mesmo assim, todo ano milhares de pessoas abandonam o Islã e se tornam ateias, ou irreligiosas. Algumas compartilham sua experiência em livros ou na internet.

Religião intoxica não só intelectual mas também psicologicamente, sobretudo se você foi doutrinado, ou seja, intoxicado desde criança. Uma pessoa pode se libertar da religião e continuar a ser por ela negativamente afetada. Doutrinas como Inferno e Fim dos Tempos ainda podem fazê-la ter pesadelos. Faça o trabalho de curar as feridas do abuso religioso. Obtenha apoio e ajuda de todas as maneiras que puder, em grupos online e locais, mas, se necessário, também dum terapeuta.

Religiões têm muito em comum com ditaduras. Não querem que você saiba demais, descubra seus podres. Você passou anos ouvindo que a Bíblia é divina e que sua igreja foi instituída por ninguém menos que o próprio Criador do Universo. Aprender sobre como esse amontoado de cópias de cópias de mais cópias de farrapos de fragmentos de pergaminhos da Idade do Ferro com historinhas também da Idade do Bronze foi compilado confirmará a você que de divino a Bíblia nada tem, e pesquisar a história das igrejas acabará com o último resquício de encanto que você ainda possa ter pela sua. Todas as denominações provém de discórdias e rachas. O próprio livro da capa preta conta que os primeiros cristãos brigavam entre si sobre quem sabia o que Deus realmente quer. Não muito depois, os adoradores de Jesus viriam a passar séculos mutuamente se massacrando por causa da Palavra de Deus. Não há, portanto, razões para você se sentir mal por rejeitar a Bíblia. Um livro que gera tanta arrogância, confusão, divisão, hostilidade e violência merece ser rejeitado. A religião não está mais controlando sua mente. Você, agora, é livre para adquirir conhecimento em, por exemplo, História, Filosofia e Ciência. Desfrute essa liberdade.

O Cristianismo infantiliza as pessoas. Coisas boas vêm de São Nicolau, aliás, Papai Noel (Deus) e coisas más vêm de Krampus (Diabo). Você é um robozinho controlado ou por Jesus ou por Satanás. A religião cristã torna as pessoas também dependentes. “Fraco e sem vigor”, como diz uma famosa música evangélica, você não sai de casa sem implorar proteção divina, e é só com a ajuda de Deus que você alcança alguma coisa. Liberto dessa infantilidade, você precisará repensar quem é você e o que é a vida. Terá de aprender a confiar em si mesmo e assumir responsabilidade por suas escolhas. Crie uma vida em torno de novos valores e que funciona para você. A vida é uma aventura. Então, aventure-se. Abra-se para novas experiências e amigos.

Evangélicos são condicionados a ver sua igreja como sua família e treinados a repetir “Deus está no comando”. Com sua doutrina de recompensa após a morte, o Cristianismo faz você negar a realidade, alienando-o do mundo. Ora, perfeição não existe em lugar algum do Universo. Logo, neste planeta também não. Ele, porém, é o nosso mundo. Então, encare a realidade. Encará-la ajudará você a pôr sua vida nos trilhos. Aceite a ideia de que sua casa é a Terra e sua família, a Humanidade. Qualquer criança percebe que nenhum deus está no comando. Melhorar o mundo depende de nós. Você pode contribuir para a solução de alguns problemas. Estamos todos interligados. Junte-se a outros para tornar nossa casa um lugar mais agradável.

À medida que reconhece que você faz parte não dum mundo invisível, imaginário, mas deste, o real, você percebe que, ao contrário do que a religião em você inculcou, você tem valor e não precisa merecer existir. Abrace esta vida, sem se preocupar com uma próxima. Curta estar vivo. Você tem o direito de gozar a vida sem sentimento de culpa. Sua vida, agora, não é regida por um monte de regras, muitas delas ridículas, mas por só uma: não fazer mal. Em vez de julgar as pessoas, busque apreciá-las. Recupere sua criatividade e se expresse da maneira que quiser, e não mais para glorificar um ser invisível. Ame-se e orgulhe-se de si mesmo. Considerando que a religião ainda aprisiona a mente de bilhões de pessoas, sinta-se privilegiado e desfrute o inestimável prazer de ser um livre-pensador.