Humanismo

O que é Humanismo?

O que é Humanismo?

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British Humanist Association

Traduzido por Paulo Bitencourt

Algumas pessoas acreditam que há só um sentido da vida. Pensam que o Universo foi criado com um propósito e os seres humanos fazem parte de algum plano cósmico maior. Acham que sentido vem de fazer parte desse plano, que estaria escrito no Universo, à espera de ser descoberto.

A visão humanista do sentido da vida é diferente. Humanistas não acham que há um óbvio propósito para o Universo, e sim que é um fenômeno natural, sem projeto algum por trás dele. Sentido não é algo lá fora esperando para ser descoberto, mas algo que nós criamos em nossa própria vida. Embora esse vasto e incrivelmente antigo Universo não tenha sido criado para nós, todos estamos conectados a algo maior que nós mesmos, seja ele a família e comunidade, uma tradição que se estende ao distante passado, uma ideia ou causa que mira o futuro ou o belo e mais amplo mundo natural em que nascemos e nossa espécie evoluiu.

Essa maneira de pensar significa que não há apenas um grande sentido da vida, e sim que cada pessoa terá muitos diferentes sentidos da sua vida. Cada um de nós é único e nossas diferentes personalidades dependem duma complexa mistura de influências de nossos pais, ambiente e relações. Elas mudam com a experiência e alteração nas circunstâncias. Não há receitas de vida simples que sejam aplicáveis a todas as pessoas. Temos gostos, preferências, prioridades e objetivos diferentes.

Uma pessoa pode gostar de desenhar, caminhar na floresta ou cuidar de seus netos. Outra pode gostar de cozinhar e assistir a novelas, saborear seu vinho favorito ou provar novos tipos de comida. Podemos encontrar sentido na família, carreira profissional, engajamento num projeto artístico ou reforma política, em simples prazeres, como jardinagem e passatempos, ou milhares de outras coisas, dando rédeas à nossa criatividade ou curiosidade, a nossas capacidades intelectuais ou nossa vida emocional.

O momento de ser feliz é agora, e a maneira de encontrar sentido na vida é ir em frente e vivê-la tão plenamente e bem quanto possível. Isso é Humanismo.

Algumas Razões Por Que Humanistas Rejeitam a Bíblia

Joseph C. Sommer

Traduzido por Paulo Bitencourt

Introdução

Humanistas rejeitam a afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Estão convencidos de que esse livro foi escrito apenas por humanos, numa era ignorante, supersticiosa e cruel. Acreditam que, pelo fato de os escritores da Bíblia terem vivido numa era não iluminada, esse livro contém muitos erros e ensinos prejudiciais. Devido à sua posição sobre a Bíblia, humanistas recebem muitas críticas. Alguns chegam a acusá-los de serem maus. Este artigo tenta esclarecer as razões por que humanistas têm opiniões negativas sobre a Bíblia.

Importância do Assunto

Nos Estados Unidos, a Bíblia é frequentemente aclamada como livro divinamente inspirado. A televisão e rádio transmitem programas religiosos que louvam a Bíblia como a Palavra sagrada e infalível de Deus. Grupos religiosos distribuem grandes quantidades de livros, revistas, gravações, panfletos e outros itens. Esses materiais promovem a ideia de que, como disse o televangelista Pat Robertson, “a Bíblia é um guia prático para a política, negócios, família e todos os assuntos da Humanidade” 1.

A Bíblia é exaltada também por muitos políticos. O presidente Ronald Reagan, por exemplo, sancionou uma lei proclamando 1983 o Ano da Bíblia. Essa lei descreve a Bíblia como a Palavra de Deus e diz que há “uma necessidade nacional de estudar e aplicar seus ensinos” 2. Nos Estados Unidos, milhares de outros líderes religiosos e políticos promovem a Bíblia. Na maioria das comunidades, uma visão oposta raramente, ou nunca, é ouvida.

A maciça e incessante promoção da Bíblia significativamente influencia a crença de milhões. Uma pesquisa da Gallup mostrou que mais de 30% dos americanos acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus e seus ensinamentos devem ser interpretados literalmente 3. A Gallup identificou adicionais 25% de americanos que consideram a Bíblia inspirada por Deus, mas acham que, em vez de literalmente, alguns versículos devem ser interpretados simbolicamente 4. A Gallup diz que, embora tenham dúvidas sobre se toda a Bíblia é a Palavra de Deus, muitas pessoas ainda consideram esse livro uma fonte de verdades morais e reputam seus ensinos como merecedores de grande respeito 5. Tais opiniões sobre a Bíblia certamente são, pelo menos em parte, responsáveis pela descoberta da Gallup de que mais de dois terços dos americanos pertencem a igrejas ou sinagogas e 40% frequentam os cultos semanalmente 6.

Se a visão humanista da Bíblia é correta, milhões de crentes na Bíblia e frequentadores de igrejas estão perdendo muito tempo, dinheiro e energia. A condição da Humanidade poderia ser grandemente melhorada, se esses recursos fossem usados ​​para resolver os problemas do mundo, em vez de para adorar um deus inexistente. Além disso, tantas pessoas ouvem que a Bíblia é o “bom livro” que em vários assuntos seus ensinamentos moldam as atitudes de milhões. Em assuntos relacionados a questões governamentais, quando os crentes na Bíblia expressam seus pontos de vista na arena política toda a sociedade pode ser afetada.

Qualquer pessoa que se tornar politicamente ativa logo descobrirá que os ensinamentos da Bíblia influenciam as opiniões de muitos americanos em questões envolvendo guerra nuclear, superpopulação, conservação, direitos das mulheres, direitos dos homossexuais, igualdade racial, punição física de crianças, separação entre Igreja e Estado, educação sexual, Ciência, aborto, contracepção, censura, pena de morte e outros assuntos. Quando as pessoas vêem a Bíblia como a Palavra dum Deus justo e onisciente e tentam fazer com que as leis e práticas sociais da sociedade reflitam os ensinamentos bíblicos, graves erros e danos ocorrerão se a Bíblia de fato foi escrita por humanos falíveis que viveram numa era não iluminada. Nesse caso, a Bíblia não seria um guia para alcançar felicidade e bem-estar. Em vez disso, perpetuaria ideias dum passado ignorante e supersticioso — e impediria a Humanidade de ascender a um nível mais elevado.

Contradições

A Bíblia é uma autoridade não confiável porque contém inúmeras contradições. Logicamente, se duas afirmações são contraditórias pelo menos uma delas é falsa. As contradições bíblicas provam, portanto, que esse livro contém muitas declarações falsas e não é infalível.

Exemplos de Contradições do Antigo Testamento

As contradições começam nos capítulos iniciais da Bíblia, em que são contadas inconsistentes histórias da criação. Gênesis capítulo 1 diz que o primeiro homem e a primeira mulher foram feitos ao mesmo tempo e após os animais. Porém, Gênesis capítulo 2 apresenta uma ordem diferente da criação: o homem, depois os animais e depois a mulher.

O capítulo 1 de Gênesis lista seis dias da criação, enquanto o capítulo 2 se refere ao “dia em que o Senhor Deus fez a Terra e os céus”. Gênesis 1:2-3 afirma que Deus criou a luz e a separou das trevas no primeiro dia, mas Gênesis 1:14-19 diz que o Sol, a Lua e as estrelas foram feitos só no quarto dia.

O capítulo 1 relata que as árvores frutíferas foram criadas antes do homem, enquanto o capítulo 2 indica que foram feitas depois dele. Gênesis 1:20 diz que as aves foram criadas das águas, já Gênesis 2:19 alega que foram formadas do solo.

Contradições são encontradas também na história bíblica dum dilúvio mundial. De acordo com Gênesis 6:19-22, Deus ordenou a Noé que “de tudo o que vive, de toda carne” metesse na arca “dois de cada espécie”. Não obstante, Gênesis 7:2-3 relata que o Senhor ordenou a Noé que dos animais puros e pássaros pusesse na arca pares de sete, e apenas dos animais imundos, pares de dois.

Gênesis 8:4 relata que, quando as águas do Dilúvio baixaram, a arca de Noé repousou nas montanhas de Ararate no sétimo mês. O versículo seguinte, entretanto, diz que o topo dos montes não podia ser visto até ao décimo mês.

Gênesis 8:13 descreve a terra como seca no primeiro dia do primeiro mês. Porém, Gênesis 8:14 informa que a terra não secou até o vigésimo sétimo dia do segundo mês.

O Antigo Testamento contém uma interessante contradição na história do censo feito pelo rei Davi e a resultante punição dos israelitas. Por causa desse recenseamento, Deus ficou tão zangado que enviou uma praga que matou 70.000 homens. De acordo com 2 Samuel 24:1, o Senhor é quem instigou Davi a realizar o censo — o que faz o castigo parecer ainda mais absurdo. Contudo, mais tarde fez-se, em 1 Crônicas 21:1, uma tentativa de melhorar a imagem de Deus, alegando que Satanás é quem incitou ao recenseamento.

Ademais, o Antigo Testamento é contraditório sobre se o Senhor ordenou aos israelitas que a ele sacrificassem animais. Em Jeremias 7:22, Deus nega ter dado esse mandamento. Em contraste, Êxodo 29:38-42 e muitos outros versículos descrevem Deus exigindo que os israelitas oferecessem sacrifícios de animais.

Exemplos de Contradições do Novo Testamento

No Novo Testamento, há contradições entre as genealogias de Jesus apresentadas no primeiro capítulo de Mateus e no terceiro capítulo de Lucas. Ambas começam com o pai de Jesus, que é identificado como José (o que é curioso, já que Maria foi supostamente engravidada pelo Espírito Santo). Mateus diz que o pai de José era Jacó, enquanto Lucas afirma que era Eli. Mateus lista 26 gerações entre Jesus e o rei Davi, enquanto Lucas registra 41. Mateus segue a linha de ascendência de Jesus por Salomão, filho de Davi, enquanto Lucas a descreve pela dum outro filho de Davi: Natã.

A história do nascimento de Jesus também é contraditória. Mateus 2:13-15 descreve José e Maria fugindo para o Egito com o menino Jesus imediatamente após os magos do Oriente terem trazido presentes. Todavia, Lucas 2:22-40 afirma que, após o nascimento de Jesus, seus pais permaneceram em Belém para o tempo da purificação de Maria (que, pela lei mosaica, era de 40 dias). Depois disso, trouxeram Jesus a Jerusalém “para o apresentarem ao Senhor” e retornaram para sua casa em Nazaré. Lucas não menciona viagem alguma ao Egito, nem visita de magos do Oriente.

A respeito da morte de Judas, o discípulo desleal, Mateus 27:5 afirma que ele pegou o dinheiro que recebera por trair Jesus, jogou-o no templo e “retirou-se e foi-se enforcar”. Contrariando isso, Atos 1:18 diz que Judas usou o dinheiro para comprar um campo e “caiu de cabeça, seu corpo partiu-se ao meio, e as suas vísceras se derramaram”.

Ao descrever Jesus sendo levado à execução, João 19:17 relata que ele carregou sua própria cruz. Entretanto, Marcos 15:21-23 discorda, dizendo que foi carregada por um homem chamado Simão.

Quanto à crucificação, Mateus 27:44 diz que Jesus foi insultado por ambos os criminosos que com ele estavam sendo crucificados. Porém, Lucas 23:39-43 relata que apenas um dos criminosos insultou Jesus, o outro repreendeu o insultador, e Jesus disse ao criminoso que o defendia: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.

Em relação às últimas palavras de Jesus na cruz, Mateus 27:46 e Marcos 15:34 citam Jesus clamando em alta voz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Lucas 23:46 dá suas palavras finais como: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Já João 19:30 alega que suas últimas palavras foram: “Está consumado”.

Há contradições até nos relatos da ressurreição, o suposto evento que é o próprio fundamento da religião cristã. Marcos 16:2 afirma que, no dia da ressurreição, algumas mulheres chegaram ao túmulo ao nascer do Sol. Contudo, João 20:1 informa que chegaram quando ainda estava escuro. Lucas 24:2 descreve o túmulo como aberto quando as mulheres chegaram, enquanto Mateus 28:1-2 indica que estava fechado. Marcos 16:5 declara que as mulheres viram um jovem no túmulo, Lucas 24:4 diz que viram dois homens, Mateus 28:2 relata que viram um anjo e João 20:11-12 afirma que viram dois anjos.

Nas histórias da ressurreição, há contradições também quanto à identidade das mulheres que foram ao túmulo 7, se os homens ou anjos que as mulheres viram estavam dentro ou fora do túmulo 8, se os homens ou anjos estavam em pé ou sentados 9 e se Maria Madalena reconheceu o Jesus ressuscitado quando ele lhe apareceu pela primeira vez 10.

Como exemplos finais de contradições no Novo Testamento, podem ser citados os conflitantes relatos da conversão de Paulo. Atos 9:7 afirma que, quando Jesus chamou Paulo para pregar o evangelho, os homens que estavam com Paulo ouviram uma voz, mas não viram pessoa alguma. De acordo com Atos 22:9, no entanto, os homens viram uma luz, mas não ouviram a voz falando com Paulo.

Esses exemplos são apenas algumas das centenas de contradições contidas no Antigo e Novo Testamentos. Cada contradição é um caso em que pelo menos um dos versículos está errado. Logo, centenas de contradições significam que na Bíblia há, no mínimo, centenas de afirmações incorretas.

Crueldades

Humanistas rejeitam a Bíblia também por aprovar crueldade e injustiça ultrajantes. Em sistemas jurídicos civilizados, um princípio fundamental é que o sofrimento de inocentes é a essência da injustiça. A Bíblia, todavia, ensina que, ao fazer pessoas inocentes sofrerem, Deus repetidamente violou esse preceito moral.

Crueldade em Ensinamentos Cristãos Básicos

Casos de comportamento cruel e injusto por parte do deus bíblico são vistos nas doutrinas cristãs mais básicas. Alguns dos atos de Deus que fizeram inocentes sofrerem:

Ele condenou toda a raça humana e amaldiçoou toda a criação por causa dos atos de duas pessoas (Gênesis 3:16-23; Romanos 5:18), afogou mulheres grávidas, crianças e animais no Dilúvio (Gênesis 7:20-23), atormentou os egípcios e seus animais com granizo e doenças porque o faraó se recusou a permitir que os israelitas saíssem do Egito (Êxodo 9:8-11,25) e matou bebês egípcios na Páscoa (Êxodo 12:29-30).

Após o Êxodo, Deus ordenou que os israelitas exterminassem os homens, mulheres e crianças de sete nações e roubassem suas terras (Deuteronômio 7:1-2), matou o bebê do rei Davi por causa de seu adultério com Bate-Seba (2 Samuel 12:13-18), exigiu a tortura e assassinato de seu próprio filho (Romanos 3:24-25) e prometeu mandar não cristãos à tortura eterna (Apocalipse 21:8).

Mais Chacinas Ordenadas Pelo Senhor

Além da injustiça e crueldade contidas em muitos ensinos cristãos conhecidos, a Bíblia conta outras histórias violentas que se opõem aos padrões civilizados de moralidade. Entre as passagens bíblicas mais chocantes, estão aquelas que retratam Deus ordenando ou aprovando o extermínio de várias pessoas, incluindo crianças e idosos. Alguns exemplos:

Esses versículos expõem o deus bíblico como tendo a moral dum sociopático assassino em massa.

Exemplos de Outros Métodos Cruéis de Deus

O deus da Bíblia exibiu suas tendências sádicas ao empregar uma variedade de outros meios para atormentar e matar pessoas:

Fez com que a terra se abrisse e engolisse famílias inteiras (Números 16:37-32), usou fogo para devorar pessoas (Levítico 10:1-2; Números 11:1-2) e puniu os israelitas com guerras, fomes e pestes (Ezequiel 5:11-17).

Enviou animais selvagens, como ursos (2 Reis 2:23-24), leões (2 Reis 17:24-25) e serpentes (Números 21:6) para atacar pessoas, sancionou a escravidão (Levítico 25:44-46), ordenou perseguição religiosa (Deuteronômio 13:12-16) e causou canibalismo (Jeremias 19:9).

Punições Divinas Desproporcionais

O Deus bíblico é culpado também de infligir punições que são grosseiramente desproporcionais aos atos cometidos. No sistema jurídico americano, tal desproporção viola a Oitava Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe punições cruéis e incomuns. Obviamente, castigar pessoas que são completamente inocentes, como nas passagens bíblicas acima, constitui uma punição terrivelmente desproporcional à culpabilidade moral dos castigados.

Há outros casos em que as punições do deus bíblico são chocantemente duras em comparação com os atos cometidos. Por exemplo, o Antigo Testamento diz que o Senhor prescreveu execução como castigo para os “crimes” de trabalhar no sábado (Êxodo 31:15), amaldiçoar os pais (Levítico 20:9), adorar outros deuses (Deuteronômio 17:2-5), incitar um amigo ou membro da família a adorar outros deuses (Deuteronômio 13:6-10), ser uma bruxa, médium ou mago (Êxodo 22:18; Levítico 20:27), envolvimento em atos homossexuais (Levítico 20:13) e não ser virgem na noite de núpcias (Deuteronômio 22:20-21).

Em relação à imposição de punições excessivamente severas, no Novo Testamento Deus se tornou muito pior. É difícil conceber algo mais cruel e desproporcional que punir pessoas com tortura eterna por mera descrença de que Jesus é o Filho de Deus. A incapacidade de acreditar nessa proposição não prejudica pessoa alguma. Alguns dos maiores benfeitores da Humanidade descreem dela. Mesmo assim, Deus promete punir a eles e a todos os outros descrentes com a dor mais horrível que se possa imaginar.

A Violência Divina Incita à Violência Humana

Um sério problema com a violência e injustiça da Bíblia é que os ensinamentos e exemplo do deus bíblico frequentemente incitaram atos cruéis de seus seguidores. Muitos deles raciocinaram que, já que Deus, que é considerado justo e amoroso, cometeu ou aprovou atos brutais, bons cristãos não precisam ter escrúpulos de se comportar da mesma maneira. Tal lógica levou o patriota americano Thomas Paine a dizer: “A crença num deus cruel torna o homem cruel” 11.

O tratado A História da Tortura, de Joseph McCabe, ilustra esse processo de raciocínio. McCabe relata que, durante a Idade Média, havia mais tortura empregada na Europa cristã que em qualquer sociedade na História 12. A principal causa dessa crueldade era a doutrina cristã do castigo eterno. McCabe explica: “Se Deus castiga os homens com tormento eterno, certamente é lícito que os homens usem doses disso numa boa causa” 13.

Outros exemplos históricos de atos violentos e injustos apoiados por ensinamentos bíblicos incluem: a Inquisição, as Cruzadas, queima de bruxas, guerras religiosas, pogroms contra judeus, perseguição de homossexuais, conversões forçadas de pagãos, escravidão, espancamento de crianças, tratamento brutal de doentes mentais, supressão de cientistas, chicotadas, mutilações e execuções violentas. Esses atos fizeram parte do mundo cristão por séculos. Thomas Paine tinha total razão em dizer sobre a Bíblia: “É uma história de maldade que serviu para corromper e brutalizar a Humanidade. Sinceramente, detesto-a como detesto tudo que é cruel” 14.

Ensinamentos Inconsistentes Com as Leis da Natureza

Muitas das afirmações da Bíblia são inconsistentes com as leis da Natureza. Humanistas acreditam que essas afirmações são erradas e prejudiciais.

Ciência e as Leis da Natureza

Como resultado da observação e experiência humanas, um princípio fundamental da Ciência é que as leis da Natureza não mudam, não podem ser violadas e têm agido uniformemente ao longo do tempo. De acordo com o paleontólogo Stephen J. Gould, essa uniformidade ou constância das leis naturais é o “pressuposto metodológico” que torna a Ciência praticável 15.

De fato, sem o pressuposto de que o mundo físico opera de acordo com leis naturais imutáveis, não haveria utilidade em estudar o mundo, conduzir experimentos ou aprender com a experiência. Num mundo que não opera sob leis naturais invariáveis, esses atos seriam inúteis porque o conhecimento de eventos passados ​​não forneceria orientação sobre o que acontecerá em situações semelhantes no futuro. Sempre haveria a possibilidade de forças sobrenaturais intervirem para alterar os resultados do que, de outra forma, seria esperado que ocorresse com base na experiência passada. Contundentes evidências mostram que eventos físicos ocorrem de acordo com leis naturais imutáveis, e um conhecimento crescente dessas leis aumenta a capacidade da Humanidade de prever eventos futuros e controlar o destino humano.

A Bíblia e Eventos Sobrenaturais

Ao afirmar que seres sobrenaturais intervêm no mundo, a Bíblia se opõe ao princípio científico de que as leis naturais operam de modo uniforme e invariável. Como resultado, a Bíblia desencoraja uma abordagem científica dos problemas.

A Bíblia tem histórias sobre uma cobra falante (Gênesis 3:4-5), uma árvore que dá frutos que, quando comidos, dão conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:17; 3:5-7), outra árvore cujo fruto confere imortalidade (Gênesis 3:22), uma voz vinda duma sarça ardente (Êxodo 3:4), uma jumenta falante (Números 22:28), varas que se transformam em serpentes (Êxodo 7:10-12), água que se transforma em sangue (Êxodo 7:19-22), água vinda duma rocha (Números 20:11), um homem morto que revive quando seu cadáver toca os ossos dum profeta (2 Reis 13:21) e outras pessoas que ressuscitam dos mortos (1 Reis 17:21-22; 2 Reis 4:32-35; Atos 9:37-40).

Há relatos também sobre o Sol parar (Josué 10:13), o mar ser dividido (Êxodo 14:21-22), ferro flutuar (2 Reis 6:5-6), a sombra do Sol retroceder dez graus (2 Reis 20:9-11), uma bruxa trazer o fantasma de Samuel de volta dos mortos (1 Samuel 28:3-15), dedos sem corpo escreverem numa parede (Daniel 5:5), um homem viver três dias e três noites na barriga dum peixe (Jonas 1:17), pessoas andarem sobre a água (Mateus 14:26-29), uma virgem fecundada por Deus (Mateus 1:20), uma piscina de água que pode curar as doenças de quem nela mergulha (João 5:2-4) e anjos e demônios influenciarem assuntos terrenos (Atos 5:19; Lucas 11:24-26).

Esses mitos bíblicos sustentam a crença, mantida por povos primitivos e analfabetos ao longo da História, de que seres sobrenaturais com frequência e arbitrariamente intervêm no mundo. Quando examinadas à luz da experiência e razão, as afirmações da Bíblia sobre ocorrências sobrenaturais não justificam essa crença. Nossa experiência é que o mundo natural opera de acordo com princípios de regularidade — que nunca são violados. Por experiência própria, sabemos também que muitas pessoas se enganam ou são desonestas. Assim, é muito mais provável que os escritores da Bíblia tenham errado, ou mentido, do que as leis da Natureza sido violadas.

Danos da Perspectiva Sobrenatural

Por causa da crença de que seres sobrenaturais controlam o mundo, ao tentarem solucionar problemas as pessoas muitas vezes desviavam suas energias. Em vez de estudarem o mundo para descobrir soluções científicas para os problemas, num esforço para obter a ajuda de seres sobrenaturais benevolentes ou impedir a influência de seres maliciosos elas realizavam atividades religiosas. Esses desvios de energia são vistos, por exemplo, na história das tentativas de prevenir o surto e propagação de doenças na Europa. O historiador Andrew White relata que, durante muitos séculos na Idade Média, a imundície das cidades europeias repetidamente causou grandes pragas que enviaram multidões para seus túmulos 16.

Com base em ensinamentos bíblicos, durante aqueles séculos teólogos cristãos pensaram que as pragas eram causadas pela ira de Deus ou malevolência de Satanás 17. A Bíblia lhes deu amplo apoio para sua crença. Ela contém inúmeros exemplos de Deus punindo as pessoas por meio de pestilência (Êxodo 32:35; Números 16:44-49; Jeremias 21:6). Ao descrever os milagres de cura de Jesus, o Novo Testamento atribui aos demônios estas aflições: cegueira (Mateus 12:22), mudez (Mateus 9:32-33), manqueira (Lucas 13:11,16), epilepsia (Mateus 17:14-18) e insanidade (Marcos 5:1-13). Esses ensinamentos levaram os primeiros líderes da Igreja a promover a ideia de que a atividade demoníaca é a principal causa das doenças. Santo Agostinho, por exemplo, cujas opiniões fortemente influenciaram o pensamento ocidental por mais de mil anos, disse no século IV: “Todas as doenças dos cristãos devem ser atribuídas a esses demônios” 18.

Com o advento da Reforma Protestante, no século XVI, houve pouca mudança na atitude cristã em relação às causas das doenças. Martinho Lutero, o fundador do Protestantismo, repetidamente atribuiu suas próprias doenças a “feitiços do demônio”. Também declarou: “Satanás produz todas as doenças que afligem a Humanidade, pois ele é o príncipe da morte” 19.

Por acreditarem em causas sobrenaturais das doenças, os teólogos ensinavam que as pragas podiam ser evitadas, ou interrompidas, pela busca de ajuda sobrenatural. E a maneira de obter a ajuda de Deus, pensavam, era realizando atos religiosos. Isso incluía arrepender-se do pecado 20, dar presentes para igrejas, mosteiros e santuários 21, participar de procissões religiosas 22, comparecer aos serviços religiosos (o que muitas vezes só aumentava a propagação de doenças) 23 e matar judeus e bruxas (visto que se pensava que Satanás os usava como seus agentes para causar doenças) 24. Os líderes religiosos amplamente ignoraram a possibilidade de causas e curas físicas de doenças 25.

A Ciência Supera o Sobrenaturalismo

Andrew White afirma que, apesar de todas as orações, rituais e outras atividades religiosas realizadas ao longo dos séculos, a frequência e gravidade das pragas não diminuíram até que apareceu a higiene científica. Em relação às melhorias higiênicas instituídas durante a segunda metade do século XIX, White explica: “Em meio século, as autoridades sanitárias fizeram muito mais para reduzir a taxa de doenças e morte que o que foi feito em 1.500 anos por todos os fetiches que o raciocínio teológico poderia conceber, ou o poder eclesiástico, impor”26.

Os resultados superiores do uso da Ciência em vez da religião podem ser vistos em muitos outros campos. Humanistas, portanto, aceitam a visão científica de que o mundo opera sob leis naturais invariáveis, ​​que não podem ser suspensas por rituais religiosos ou outros meios. Humanistas têm em alta estima aqueles que estudam o mundo e dele fornecem um melhor entendimento. Ao contrário de teólogos, que se concentram em influenciar supostos poderes sobrenaturais, pessoas que usam uma perspectiva científica têm permitido que seja alcançado grande progresso na redução da miséria e aumento da felicidade.

Ideias Incorretas Sobre a Estrutura do Mundo Físico

Humanistas repudiam a Bíblia também por causa de suas ideias equivocadas sobre a estrutura do mundo físico. Como é o caso das declarações da Bíblia que se opõem às leis da Natureza, os pontos de vista desse livro sobre esse assunto são semelhantes às crenças defendidas por pessoas primitivas e analfabetas ao longo da História.

Terra Estacionária Como Centro do Universo

Um ensino errôneo da Bíblia fez com que teólogos cristãos se opusessem à prova de Galileu de que a Terra gira em torno de seu eixo e do Sol. No século XVI, essa teoria sobre o duplo movimento da Terra fora proposta por Copérnico. No século seguinte, o telescópio de Galileu provou que Copérnico estava certo.

Para, em oposição à doutrina copernicana, mostrar que a Terra permanece estacionária enquanto o Sol se move ao seu redor, a Igreja Católica apontou para o décimo capítulo do livro de Josué 27. Lá, somos informados de que, a fim de ter um período mais longo de luz do dia para cumprir a ordem do Senhor de massacrar os amorreus, Josué ordenou que o Sol parasse — não a Terra.

Outras passagens que demonstram que a Terra permanece estacionária incluem Salmos 93:1 (“O mundo está estabelecido; nunca será movido”), 1 Crônicas 16:30 (“O mundo está firmemente estabelecido. Não pode ser movido”) e Salmos 104:5 (“Ele pôs a Terra em seus alicerces; nunca poderá ser movida”).

Por causa do apoio de Galileu à doutrina copernicana, a Inquisição o ameaçou com tortura, forçou-o a se retratar e o sujeitou à prisão 28. Além disso, por quase 200 anos o Índice dos Livros Proibidos pela Igreja Católica condenou todos os escritos que afirmavam o duplo movimento da Terra 29.

Os protestantes não eram muito melhores. Por gerações, os principais ramos do Protestantismo (luterano, calvinista e anglicano) denunciaram a doutrina copernicana como contrária às Escrituras 30.

Uma Terra Plana Apoiada em Pilares

A Bíblia apoia a primitiva noção duma Terra plana. No século VI, um monge cristão chamado Cosmas escreveu um livro intitulado Topographia Christiana descrevendo a estrutura do mundo físico. Baseando sua visão na Bíblia, Cosmas disse que a Terra é plana e cercada por quatro mares 31. A profecia de Apocalipse 1:7 foi a base para sua conclusão. Afirma que, quando Cristo voltar, “todo olho o verá”. Cosmas raciocinou que se a Terra fosse redonda as pessoas do outro lado não veriam a segunda vinda de Cristo 32.

Suporte adicional para a ideia duma Terra plana está contido nos versículos que mencionam os “quatro cantos da Terra” (Isaías 11:12; Apocalipse 7:1) e os “confins da Terra” (Jeremias 16:19; Atos 13:47).

Por causa de tais ensinos bíblicos, a maioria dos Pais da Igreja primitiva pensava que a Terra era plana 33. De fato, a visão de mundo contida no livro de Cosmas foi aceita por vários séculos como doutrina cristã ortodoxa 34. Mesmo no século XV, quando Cristóvão Colombo propôs navegar para o oeste da Espanha para chegar às Índias Orientais, a noção bíblica duma Terra plana foi uma grande fonte de oposição a ele 35.

Quanto à questão sobre o que mantém a Terra plana no lugar, a Bíblia indica que a resposta é “pilares”. Os pilares da Terra são mencionados em vários versículos do Antigo Testamento (1 Samuel 2:8; Salmos 75:3; Jó 9:6). Essas passagens refletem a crença dos antigos hebreus de que a Terra repousa sobre alicerces 36.

Céu, Uma Cúpula Sólida Com Janelas

A Bíblia promove a ideia de que o céu é uma cúpula sólida que cobre a Terra. No relato da criação, Gênesis 1:17 diz que o Senhor pôs o Sol e a Lua “no firmamento” para fornecerem à Terra luz. A palavra hebraica traduzida como firmamento é raqia, que significa “metal martelado” 37. Mais apoio para a noção duma cúpula sobre a Terra é encontrado em Jó 37:18 (onde o céu é descrito como um “espelho fundido”), Isaías 40:22 (Deus “estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar”) e Apocalipse 6:14 (“O céu foi enrolado como pergaminho”).

Esse conceito de céu era comum no antigo Oriente Próximo e considerado certo pelos escritores da Bíblia 38. Com base nela, a maioria dos Pais da Igreja primitiva aceitaram essa noção de firmamento 39. A mesma posição foi apoiada por Cosmas e, portanto, fez parte da doutrina cristã ortodoxa por vários séculos 40.

A doutrina ortodoxa continha também a relacionada ideia de que o firmamento tem janelas — que são abertas pelos anjos quando Deus quer mandar chuva. Cosmas acreditava que, quando as janelas são abertas, algumas das águas contidas acima do firmamento (mencionadas em Gênesis 1:17) caem na Terra. A base de Cosmas para essa crença é a declaração, em Gênesis 7:11-12, de que na época do Dilúvio de Noé as “as janelas dos céus se abriram” e a chuva caiu 41.

Sinais Sobrenaturais Nos Céus

As histórias da Bíblia levaram o mundo cristão a — por séculos — acreditar que Deus manda à Humanidade sinais nos céus. Cristãos pensavam que cometas alertam sobre a ira divina e iminente punição 42, estrelas e meteoros anunciam eventos benéficos, como o nascimento de heróis e grandes homens 43, eclipses significam inquietação divina em resposta a eventos na Terra 44 e tempestades e outros fenômenos climáticos destrutivos resultam da ira de Deus ou maldade de Satanás 45.

Erros Adicionais Sobre o Mundo Físico

Há na Bíblia versículos que mencionam dragões (Jeremias 51:34), unicórnios (Isaías 34:7) e basiliscos (Isaías 11:8). Essas passagens levaram muitos naturalistas da Idade Média a pensar que essas criaturas míticas realmente existiam 46.

A Bíblia está incorreta também ao dizer que o morcego é um pássaro (Levítico 11:13,19), a lebre e texugo ruminam (Levítico 11:5-6) e o grão de mostarda é “a menor de todas as sementes” (Mateus 13:32).

Ademais, é inconsistente com a Ciência — e ridículo — acreditar que Deus confundiu a linguagem dos humanos porque temia que construíssem uma torre alta o suficiente para alcançar o céu (Gênesis 11:1-9).

Efeito Geral da Ciência Bíblica

Andrew White resume os resultados históricos de confiar na Bíblia para obter respostas sobre o mundo físico. Não é uma visão bonita: “Em todas as áreas, foram desenvolvidas concepções teológicas da Ciência que nunca levaram a uma única verdade, sem exceção afastaram a Humanidade da verdade e por séculos fizeram a cristandade tropeçar em abismos de erro e tristeza” 47.

Em face das inúmeras crenças errôneas da Bíblia sobre o mundo físico, não há razão para pensar que seus escritores estavam mais corretos sobre coisas invisíveis e abstratas. Visto estar tão equivocada acerca do Universo tangível e observável, a Bíblia não pode ser considerada um guia confiável para questões espirituais e éticas.

Falsas Profecias

As profecias bíblicas fortalecem ainda mais a visão humanista. Por muitas terem se revelado falsas, profecias provam que a Bíblia não é infalível. Ela mesma contém um teste para determinar se uma profecia foi inspirada por Deus. Deuteronômio 18:22 explica: “Se o profeta falar em nome do Senhor, mas suas previsões não acontecerem nem se cumprirem, vocês saberão que a mensagem dele não vem do Senhor. Esse profeta presumiu arrogantemente que falava em meu nome, e vocês não precisam temê-lo”. Aplicar esse teste à Bíblia leva à conclusão de que esse livro contém muitas declarações que não foram inspiradas por Deus.

Profecias do Antigo Testamento

Gênesis 2:17 diz que o Senhor advertiu Adão e Eva sobre o fruto da árvore do conhecimento. Ele declarou: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás”. No entanto, de acordo com Gênesis capítulo 3 Adão e Eva comeram o fruto proibido e não morreram naquele dia.

Gênesis 35:10 afirma que Deus disse a Jacó: “Seu nome é Jacó, mas você não se chamará mais Jacó. De agora em diante, seu nome será Israel”. Porém, 11 capítulos depois um ato do próprio Senhor provou que sua previsão estava errada. Gênesis 46:2 relata: “Durante a noite, Deus lhe falou numa visão. ‘Jacó! Jacó!’, chamou ele. ‘Aqui estou!’, respondeu Jacó”.

Em 2 Crônicas 1:12, Deus prometeu a Salomão: “Certamente lhe darei a sabedoria e o conhecimento que pediu. Também lhe darei riqueza, bens e fama como nenhum rei teve nem jamais terá”. Como apontou Robert Ingersoll no século XIX, nos dias de Salomão havia vários reis que poderiam ter jogado fora o valor da Palestina e dele não teriam sentido falta 48. A riqueza de Salomão foi excedida por muitos reis posteriores e é pequena para os padrões de hoje 49.

Isaías 17:1-2 profetiza que Damasco deixaria de ser uma cidade, tornar-se-ia um monte de ruínas e permaneceria desolada para sempre. Todavia, cerca de 27 séculos após essa previsão ter sido feita Damasco é uma das cidades mais antigas do mundo e continua forte.

Jeremias 25:11 prediz que os judeus seriam cativos na Babilônia por 70 anos e 2 Crônicas 36:20-21 vê a profecia como cumprida. Contudo, os judeus foram levados ao cativeiro pelos caldeus quando Jerusalém caiu em 586 a.C. Ciro da Pérsia emitiu uma ordem em 538 a.C. permitindo-lhes voltar da Babilônia para Judá. O cativeiro da Babilônia durou, então, cerca de 48 anos 50.

Exemplos de outras profecias do Antigo Testamento não cumpridas incluem: os judeus ocuparão a Terra desde o Nilo até o Eufrates (Gênesis 15:18), nunca perderão suas terras e não serão mais perturbados (2 Samuel 7:10), o trono e reino do rei Davi serão estabelecidos para sempre (2 Samuel 7:16), nenhum incircunciso entrará em Jerusalém (Isaías 52:1) e as águas do Egito secarão (Isaías 19:5-7).

Profecias do Novo Testamento

Aplicar o teste da Bíblia para identificar falsos profetas inevitavelmente leva à conclusão de que Jesus foi um deles. Ele errou, por exemplo, ao prever que o mundo acabaria antes de seus seguidores morrerem. Em Mateus 16:28, Jesus diz aos seus discípulos: “Eu lhes digo a verdade: alguns que estão aqui neste momento não morrerão antes de ver o Filho do Homem vindo em seu reino!”. Todas as pessoas que estavam lá eventualmente morreram e nunca viram Jesus voltar para estabelecer um reino.

Similarmente, Jesus é descrito em Marcos 13:24-30 listando sinais que acompanharão o fim do mundo. Incluem o Sol escurecendo, a Lua não dando luz alguma, as estrelas do céu caindo, o filho do homem vindo nas nuvens com poder e grande glória e anjos reunindo os escolhidos. Jesus então anuncia: “Eu lhes digo a verdade: esta geração certamente não passará até que todas essas coisas tenham acontecido”. Sua geração faleceu há muito tempo sem que ocorressem os eventos previstos.

Jesus errou também ao prever quanto tempo ele ficaria no túmulo. Em Mateus 12:40, ele ensina: “Pois, assim como Jonas passou três dias e três noites no ventre do grande peixe, o Filho do Homem ficará três dias e três noites no coração da terra”. Marcos 15:42-45 mostra que Jesus morreu numa sexta-feira à tarde. Porém, Marcos 16:9 e Mateus 28:1 dizem que ele deixou a tumba em algum momento na noite de sábado ou na manhã de domingo. De qualquer modo, o período de tempo foi de menos de três noites.

Outra significativamente falsa profecia está em João 14:13-14. Jesus promete: “Vocês podem pedir qualquer coisa em meu nome, e eu o farei, para que o Filho glorifique o Pai. Sim, peçam qualquer coisa em meu nome, e eu o farei!”. Todo mundo sabe que houve milhões de casos em que Jesus falhou em responder aos cristãos que pediam coisas em seu nome. Os cemitérios estão cheios de pessoas que a ele oraram por saúde.

Como é o caso com outras declarações incorretas na Bíblia, as falsas profecias lançam dúvidas sobre todas as afirmações bíblicas. Se uma passagem da Bíblia está errada, é possível que muitas estejam erradas.

Declarações Imprecisas Sobre História

As falsas declarações da Bíblia sobre História também reforçam a posição humanista. Historiadores e outros estudiosos têm exposto muitas das afirmações da Bíblia como historicamente imprecisas.

História e Antigo Testamento

Desde há muito, historiadores sabem que o relato bíblico dum dilúvio mundial é um mito. Andrew White, por exemplo, diz que os egiptólogos do século XIX descobriram que o Egito tinha uma florescente civilização muito antes de Noé e nenhum dilúvio a interrompeu 51.

O livro de Êxodo afirma conter um registro histórico da fuga dos israelitas da escravidão no Egito. Porém, historiadores e arqueólogos não têm sido capazes de confirmar nenhum dos eventos descritos nesse livro. Nenhum registro egípcio conhecido se refere ao Moisés bíblico, as pragas devastadoras que Deus supostamente infligiu ao país, a fuga dos escravos hebreus ou o afogamento do exército egípcio 52. Além disso, White diz que os registros contidos em monumentos egípcios mostram que o faraó na época da alegada fuga dos judeus certamente não foi afogado no Mar Vermelho 53.

O livro de Ester descreve como uma jovem judia chamada Ester foi escolhida pelo rei persa Xerxes I para, após ele se divorciar de Vasti, ser rainha. Embora os historiadores saibam muito sobre Xerxes I, não há registro de que tenha tido uma rainha judia chamada Ester, ou fosse casado com Vasti 54. Ademais, o livro de Ester retrata o Império Persa como tendo 127 províncias, mas os historiadores afirmam que não houve tal divisão do império 55. Ao contrário do livro de Ester, os historiadores asseguram ainda que Xerxes não ordenou aos judeus de seus territórios que atacassem seus súditos persas 56.

O livro de Daniel descreve eventos que supostamente aconteceram durante o cativeiro dos judeus na Babilônia. O quinto capítulo afirma que Nabucodonosor, o rei da Babilônia, foi sucedido no trono por seu filho Belsazar. Todavia, os historiadores dizem que Belsazar não era filho de Nabucodonosor e nunca foi rei 57. O livro de Daniel diz também que um “Dario, o medo” capturou Babilônia no século VI a.C. Em contraste, os historiadores sabem que Ciro da Pérsia é quem conquistou a Babilônia 58.

A História e o Novo Testamento

No Novo Testamento, o segundo capítulo de Lucas afirma que, pouco antes do nascimento de Jesus, o imperador Augusto ordenou um censo em todo o mundo romano. Lucas afirma que todas as pessoas tiveram de viajar para a cidade de seus ancestrais para que o recenseamento fosse feito. Ele identifica o censo como o motivo da viagem de José e Maria de Nazaré a Belém, onde se diz que Jesus nasceu. Em seu livro Gospel Fictions, Randall Helms diz que esse tipo de recenseamento nunca foi realizado na história do Império Romano. Helms mostra que é ridículo pensar que os práticos romanos exigiriam que milhões de pessoas viajassem enormes distâncias — a cidades de ancestrais há muito falecidos — apenas para assinar um formulário de imposto 59. Outrossim, no Guia da Bíblia de Asimov Isaac Asimov afirma que os romanos certamente não organizariam tal censo 60.

O terceiro capítulo de Lucas contém uma genealogia que rastreia os ancestrais de Cristo apenas 76 gerações até Adão. De acordo com Gênesis capítulo 1, Adão foi criado junto com o resto do Universo durante o curso de uma semana. A Bíblia, portanto, vê a raça humana e Universo como tendo existidos por um período relativamente curto, provavelmente não mais que vários milhares de anos. De fato, por muitos séculos a posição cristã ortodoxa — da qual duvidar era arriscar danação — foi a de que a criação ocorreu em algum momento entre quatro e seis mil anos antes do nascimento de Cristo 61. Historiadores e cientistas dão um registro histórico muito mais longo. Afirmam que o Universo tem entre 10 e 20 bilhões de anos 62, a idade da Terra é de aproximadamente 4,6 bilhões de anos 63 e os humanos evoluíram de ancestrais semelhantes aos macacos durante os últimos milhões de anos 64.

O capítulo 2 de Mateus diz que, logo após o nascimento de Jesus, o rei Herodes ordenou o massacre de todas as crianças do sexo masculino com dois anos de idade, ou menos, em Belém e arredores. No livro de Lucas, que contém a única outra história do nascimento de Jesus no Novo Testamento, não há menção a essa ordem horrivelmente cruel. Também não foi registrado em história secular alguma da época — nem mesmo por escritores que cuidadosamente descreveram muitos atos muito menos perversos de Herodes 65. A falta de corroboração significa que o relato de Mateus foi inventado.

Mateus 27:45 alega que, enquanto Jesus estava na cruz, sobre toda a Terra caiu uma escuridão que durou do meio-dia às três da tarde. Andrew White explica que, embora tenham cuidadosamente descrito ocorrências muito menos marcantes do mesmo tipo em regiões mais remotas, romanos como Sêneca e Plínio falharam em notar qualquer escuridão ocorrendo na Judéia 66.

Robert Ingersoll se perguntou por que o historiador judeu Flávio Josefo, do primeiro século, “o melhor historiador que os hebreus produziram, disse nada sobre a vida ou morte de Cristo, nada sobre o massacre das crianças por Herodes, nem uma palavra sobre a impressionante estrela que visitou o céu no nascimento de Cristo, nada sobre a escuridão que, no meio do dia, caiu sobre o mundo por várias horas e por que Josefo inteiramente falhou em mencionar que centenas de túmulos foram abertos e multidões de judeus ressuscitaram dos mortos e visitaram a Cidade Santa”. Ingersoll se perguntou também: “Não é curioso que nenhum historiador jamais tenha mencionado qualquer um desses prodígios?” 67. As indagações de Ingersoll são ainda mais incisivas quando se considera que ainda existem pelo menos algumas das obras de mais de 60 historiadores ou cronistas que viveram entre 10 d.C. e 100 d.C. 68 Esses escritores foram contemporâneos de Jesus, se é que ele existiu.

Todas essas contradições podem ser apontadas como exemplos de imprecisões históricas. Em todos os casos em que a Bíblia contém uma contradição sobre um suposto evento histórico, pelo menos um dos relatos está errado. Os escritores da Bíblia eram medíocres historiadores, mas ainda mais medíocres transmissores de mensagens dum deus infalível.

Outros Problemas Com a Bíblia

Há outras razões por que a Bíblia não deve ser considerada a Palavra de Deus. Incluem, mas não estão limitadas a: o fato de que não sabemos quem escreveu a maior parte dela 69, de que muito dela foi escrito muitos anos — e, em alguns casos, muitos séculos — após os eventos que pretende descrever 70, suas passagens obscenas e suas promessas de recompensas eternas para ignorantes e crédulos e de castigo eterno para céticos e investigadores.

Por fim, os danos que a Bíblia causa na vida das pessoas têm de ser mencionados como motivos para rejeitar esse livro. Não é incomum ver na mídia relatos sobre crentes na Bíblia cometendo atos bizarros, nefastos e, às vezes, letais. Algumas pessoas usam versículos bíblicos para justificar bater em crianças, negar tratamento médico, lidar com cobras, beber veneno, mutilar partes do corpo, arrancar olhos, expulsar demônios, afastar-se dos assuntos do mundo, renunciar aos prazeres da vida e esperar o mundo acabar. Se a Bíblia não fosse vista como a Palavra de Deus, esses atos ocorreriam com muito menos frequência.

Conclusão

Muitas razões convincentes e moralmente sólidas apoiam a posição humanista de que a Bíblia não é divinamente inspirada. Em vez de ser inerrante, a Bíblia tem muito mais erros e ensinamentos imorais que a maioria dos outros livros.

Ao tratar esse equivocado livro como a Palavra de Deus, ao longo da História a Humanidade foi conduzida por muitos caminhos de erro e miséria. De diversas maneiras, a Bíblia continua a produzir tais resultados. Entretanto, em alguns casos os erros causados pela Bíblia foram corrigidos e os danos, contidos. Isso aconteceu quando aos problemas foi aplicada uma abordagem científica. Ciência envolve confiar na razão, observação, experiência e solidariedade — em vez de cegamente aceitar dogmas religiosos ou seculares.

Devemos rejeitar os pontos de vista daqueles que dizem que a Bíblia tem respostas infalíveis para os problemas hodiernos. Como sabem os humanistas, a Ciência provou ser uma muito melhor fonte de respostas.

Joseph C. Sommer é ex-presidente da Humanist Community of Central Ohio, Estados Unidos.

1 Richard N. Ostling, Jerry Falwell’s Crusade, Time (2 de setembro de 1985), p. 50. Similarmente, Jerry Falwell disse: “A Bíblia é a inerrante Palavra do Deus vivo. É absolutamente infalível, sem erros em todos os assuntos relativos a fé e prática, mas também em áreas como Geografia, Ciência, História, etc.”. Peter McWilliams, Ain’t Nobody’s Business If You Do: The Absurdity of Consensual Crimes in a Free Society (Los Angeles: Prelude Press, 1993), p. 322.

2 Interrogatories Served in Gaylor vs. Reagan, Freethought Today (setembro de 1983), p. 1.

3 George Gallup Jr. e Jim Castelli, The People’s Religion: American Faith in the 90’s (Nova Iorque: MacMillan, 1989), pp. 60, 61.

4 Gallup e Castelli, p. 61.

5 Gallup e Castelli, p. 60.

6 Gallup e Castelli, p. 16.

7 Mateus 28:1, Marcos 16:1, Lucas 24:10 e João 20:1

8 Mateus 28:2 (fora) vs. Marcos 16:5, Lucas 24:3-4 e João 20:11-12 (dentro)

9 Lucas 24:4 (em pé) vs. Mateus 28:2, Marcos 16:5 e João 20:12 (sentados)

10 Mateus 28:9 e João 20:14

11 Robert G. Ingersoll, Vindication of Thomas Paine, The Works of Ingersoll, Vol. V (Nova Iorque: Dresden, 1901), p. 483.

12 Joseph McCabe, The History of Torture (Austin: American Atheist Press, republicado em 1982), pp. 12, 23.

13 McCabe, pp. 20, 21.

14 Thomas Paine, The Age of Reason (New Jersey: Citadel Press, 1974), p. 60.

15 W. A. Berggen e John A. Van Couvering, Catastrophes and Earth History: The New Uniformitarianism (Nova Jersey: Princeton University Press, 1984), p. 11.

16 Andrew D. White, A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom, Vol. II (Nova Iorque: D. Appleton and Co., 1910), pp. 67, 68.

17 White, Vol. II, p. 70.

18 White, Vol. II, p. 27.

19 White, Vol. II, p. 45.

20 White, Vol. II, p. 68.

21 White, Vol. II, p. 71.

22 White, Vol., II, p. 71.

23 White, Vol. II, pp. 86-88.

24 White, Vol. II, pp. 72-75.

25 White, Vol. II, p. 70.

26 White, Vol. II, p. 92.

27 White, Vol. I, p. 132.

28 White, Vol. I, p. 142.

29 White, Vol. I, p. 160.

30 White, Vol. I, p. 126.

31 White, Vol. I, p. 93.

32 The Ghosts, Ingersoll, Vol. I, pp. 301, 302.

33 White, Vol. I, p. 91. Veja também John W. Draper, History of the Conflict Between Religion and Science (Nova Iorque e Londres: D. Appleton and Company, 1919), pp. 62, 63, 161.

34 White Vol. I, pp. 325, 326. Veja também Draper, pp. 163, 294.

35 Draper, pp. 163, 164.

36 The New English Bible with the Apocrypha, Oxford Study Edition (Nova Iorque: Oxford University Press, 1976), p. 1002.

37 Ronald L. Ecker, Dictionary of Science and Creationism (Buffalo: Prometheus Books, 1990), p. 56.

38 Ecker, pp. 69, 70.

39 White, Vol. I, pp. 114-115. Veja também Draper, pp. 62, 63.

40 White, Vol. I, pp. 325, 326. Veja também Draper, p. 294.

41 White, Vol. I, p. 325.

42 White, Vol. I, p. 174, 175.

43 White, Vol. I, pp. 171-173, 176.

44 White, Vol. I, pp. 172, 173.

45 White, Vol. I, pp. 331, 337.

46 White, Vol. I, pp. 33-35.

47 White, Vol. I, p. 325.

48 Interviews, Ingersoll, Vol. V, p. 261.

49 C. Dennis McKinsey, The Encyclopedia of Biblical Errancy (Amherst, Nova Iorque: Prometheus Books, 1995), p. 295.

50 Tim Callahan, Bible Prophecy: Failure or Fulfillment? (Altadena, California: Millennium Press, 1997), pp. 84-85.

51 White, Vol. I, p. 257.

52 Stephen L. Harris, Understanding the Bible, 2a ed. (Palo Alto e Londres: Mayfield Publishing, 1985), p. 61.

53 White, Vol. II, p. 375.

54 Harris, p. 178.

55 Harris, p. 178.

56 Harris, p. 178.

57 Harris, p. 184.

58 John McKay, Bennett Hill e John Buckler, A History of Western Society, Vol. I (Boston: Houghton Mifflin Company, 1983), p. 61.

59 Randal Helms, Gospel Fictions (Buffalo: Prometheus Books, 1989), pp. 59, 60.

60 Isaac Asimov, Asimov’s Guide to the Bible (Nova Iorque: Avenel Books, 1981), p. 929.

61 White, Vol. I, p. 249-256.

62 Ecker, pp. 31, 199.

63 Ecker, p. 106.

64 Ecker, pp. 122, 129-131.

65 Asimov, p. 796 e Harris, p. 275.

66 White, Vol. I, p. 173.

67 The Christian Religion, Ingersoll, Vol. VI, p. 84.

68 Gordon Stein, An Anthology of Atheism and Rationalism (Buffalo: Prometheus Books, 1980), p. 178.

69 Harris, p. 2.

70 Harris, p. 2.